¡¿PROJETO RAUL DO QUE?!

Existem muitos motivos para viajar, o meu é libertário. Ou. Ética da puta que o pariu.

Maio 6, 2008 · Deixe um comentário

Quando afirmo que o “Prometo Raul Do Que?!” sobrevive de doses homeopáticamente grotescas de solidariedade não se trata apenas de verve verborrágica. Para ser mochileiro é necessário aceitar ser um fodido, e não há método Chandler Bing que consiga ser mais sarcástico que a própria rotina: você converte-se num estorvo generalizado quando toma um intermunicipal (esqueça, a mochila não passa na catraca e as duas piores merdas que se pode fazer é entalar ou trancar a fila enquanto saca o fardo das costas e se peida para passá-lo sobre a catraca – é fácil perceber isso depois da primeira experiência – , o melhor é manter a mochila nas costas e curvar-se levemente de modo que seja possível joga o peso sobre a parte superior da coluna, se preferir a erga com as mãos, mas por nada a retire do lombo, lembre-se que se isso acontecer será necessário recolocá-la, outro processo complexo e desgastante, ainda mais num ônibus lotado); é preciso esganar a timidez quando essa juventude indie pós-nirvana te laça com olhares inquisitivos como se você fosse um nômade catequizado por bíblias junkies – ou como se isso fosse muito importante apesar de verdadeiro -; responder com compaixão ácida e purgativa às senhoras pró-cristo que se benzem logo te miram ao longe; exercitar a paciência quando percebe um pai de família tendo um ataque de urticária só de te sentir aproximando-se de seu carro modelo novo com sua bela família a lá comercial da coca-cola enjaulada dentro dele indo direto à casa de campo que herdou do papai. É preciso ter genes de fodido e um certo gosto por masoquismo gratuito.
Existem muitos motivos para viajar, o meu é libertário.
E agora havia o Chuí diante das retinas, lá em frente a Ruta 09 pronta para ser retalhada e Manuel Serrat recitando pausadamente: “caminante no hay camino, se hace camino al andar, al andar se hace camino y al volver la vista atrás, se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino, sino estelas sobre el mar. ¿Para que llamar caminos a los surcos del azar…?”. Serrat sabia que dentro da minha carteira havia um papel dobrado, com a direção de Dona Madalena e Seu Jorge, avós de um amigo do Paraná. Já não havia sol algum nem fazia frio, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul com seus hábitos provincianos e rádios uruguaias, ondas eletromagnéticas que estão pouco se fodendo pra aduana e suas leis de imigração. Com o endereço entre os dedos e meu senso de direção completamente defeituoso fiquei cerca de 15 minutos tocando a campainha na casa errada, batendo palma e gritando em frente ao portão. Retirei da raspa de uma profunda inspiração o verniz menos imbecil que encontrei e esfreguei na cara quando finalmente encontrei a porta certa.

“Olá, Dona Madalena? Eu sou Junior, amigo do seu neto Rodrigo”, aquela provavelmente era a primeira vez que me referia ao Gaúcho por seu verdadeiro nome, “ele me passou seu endereço caso eu precisasse de um pouso aqui pelo Chuí”.
“Mas passe, passe”, a casa fica nos fundos da pequena loja de produtos Avon. Pensava ficar por uma noite, acabei permanecendo duas.

Mesmo madrugando para tomar o primeiro ônibus até a Barra do Chuí e conhecer a última casa, o último museu, o último instituto, último boteco e entrevistar o responsável por tudo isso, o último artista plástico e ultimo habitante em termos geográficos do Brasil, ainda assim não sobrou tempo para cruzar à Ruta 09 e entrar no Uruguai. O que restou foi descolar uma dose extra daquele mesmo verniz e esfolar novamente na cara: “Será que eu posso incomodar vocês por mais uma noite?”.
Dona Madalena e Seu Jorge são tão hospitaleiros que chegam a machucar, ao passo que as sete da manhã do dia seguinte eu estava dentro do carro de Seu Jorge seguindo afoito até a aduana uruguaia. Os guardas tomavam mate, uma serração baixa esfriava o asfalto, Seu Jorge dava meia volta e eu retornava para minha volta e meia. Tudo em uma desconexão inexplicável.
O tempo passava e os carros não, minha introspecção era potável e passei a me hidratar com ela quando o cantil secou, mais de duas horas depois. A média de veículos não ultrapassava os oito a cada hora, sendo três motos, três carros que circulavam para a Barra Del Chuy, um caminhão que contornava para retornar ao Brasil e um carro em direção Punta Del Este e que não estava interessado em ajudar um caroneiro. O Uruguai me recebeu com um teste de persistência budista que eu não estava nem um pouco disposto a aturar. Três horas e meia de espera já eram suficientes, então decidi subir no próximo ônibus que passasse indo para La Fortaleza, que segundo o agente da aduana era um lugar interessante pra caronear. 30 pesos de passagem, cerca de três reais, e uma viagem de menos de 30 minutos até uma imensa construção na entrada do Parque Nacional de Santa Tereza. O lugar estava deserto, as únicas almas que encontrei foram de um grupo de turistas dinamarqueses que caminhavam desde Punta Del Diablo até a Ruta. Larguei a mochila num arbusto próximo ao forte e fui conhecer o lugar. La Fortaleza é fascinante para os padrões sulamericamos, mas parecia um bando de pedras velhas empilhadas para os europeus, acostumados aos castelos medievais. Pedi a eles a direção de Punta Del Diablo e caminhei dois quilômetros até a praia. Não fiquei muito apesar da vista entorpecedora das rochas pontiagudas perfurando a maré, aquilo mais parecia um western litorâneo: estabelecimentos de madeira batendo as portas com o vento, fardos de areia girando como feno e aquele zumbido inquietante do silêncio. Passei pela guarda do camping antes de retornar à Ruta e pedi para encher o cantil. Um milico virou alguns mililitros de água gelada e então voltei para buscar a mochila e retornar para rodovia. Mas não sem antes purificar a água com um comprimido Clorin, não confio nessa raça, não mesmo.
Mais duas horas diante de um campo militar cercado de varejões amarelos com ferroes assassinos maiores que uma amora. Havia algumas arvores de buchá ao lado da estrada e esse acabou sendo meu almoço, bucha maduro e mais uma média complicada: três carros a cada trinta minutos, a maioria voltando para o Chuy e alguns entrando em Santa Tereza. A solução foi estender a mão quando um veículo construído em Joinville passou, ele cobrava 20 pesos até Rocha, outro ônibus. Só é possível pedir carona quando há para quem pedir carona. E não era o caso. Eu acabava de romper com a ética da puta que o pariu do caroneiro padrão. Não é uma decisão fácil a de desistir, de tomar um ônibus confortável, a porra do conforto é a assinatura da derrota, perdeu playboy. Mas uma hora ela chega, e bem, foda-se. Meus ídolos são uma trupe de iconoclastas perdedores com um mínimo potencial mega-explorado, era hora de seguir seus passos, pelo menos até Rocha.
Um ponto gigante no mapa, mas quase uma vila aposentada em 27 mil habitantes e terra do glorioso Rocha Fútbol Clube, vencedor do apertura de 2005. Não se pode exigir muito, o Uruguai tem em torno de quatro milhões de habitantes e quase a metade deles vive na grande Montevideo. Após um lanche rápido de 20 pesos voltei à intratável Ruta 09. E estava disposto a recuperar um mínimo da dignidade que ela me fez engolir desde o Chuy.
Duas horas com o dedo pro oeste e nada, a carteira de cigarro que comprei em Porto Alegre terminou naquela maldita saída de Rocha, e minha dignidade parecia ir no mesmo caminho, “está difícil, heim, hermano?”, comentou um rapaz de riso abobado logo depois que um carro compacto estacionou um pouco em frente, e arrancou tão logo me aproximei imaginando que parava para mim. Filho da puta do caralho!
“Sim, e essa rodovia é uma filha da puta também”, devolvi, já era o segundo veículo que testava meus nervos dessa maneira.
De repente, uma caminhonete marrom encostou poucos metros atrás e dela saltou um motorista moreno e barbudo, sem camisa, com dreads grossos até a bunda. Ele puxou uma mochila enorme da caçamba e colocou no chão. Em seguida saiu Lorena com seu saco de dormir nas mãos, um chapeuzinho de palha e traje hiponga.

“Olá. Tá tentando carona faz tempo?”, perguntou depois de se despedir do motorista de dreads.
“Umas duas horas mais ou menos”.
“Duas horas?!!! Caralho, eu nunca fiquei mais de quarenta minutos esperando”.
“Talvez o fato de você não ter um pinto entre as pernas ajude”, saquei a mochila das costas e deixei rolar no acostamento.
“É, pra homem deve ser mais difícil mesmo, geralmente eu consigo carona em vinte minutos. Lorena, prazer”.
“Pra mim isso é piada de mal gosto. Eu sou Junior. Da onde você é?”.
“Argentina. Você parece europeu, mas tem acento uruguaio”, ela mal chegou e já lançou o dedo pro alto ao lado da rodovia.
“Sou brasileiro. Ta tentando chegar em Montevideo?”.
“Queria chegar em Buenos Aires mas pra hoje Montevideo tá bom. To há 14 meses no Uruguai, ta na hora de voltar pra visitar a família”.
“Fazendo o que?”.
“Cuidava de tartarugas num projeto no litoral, fiquei oito meses trabalhando com isso, depois fui pra serra numa comunidade, fiquei lá plantando tomates”.
“Seis meses plantando tomate?”.
“Não não, fiquei curtindo Cabo Polônio, me apaixonei pelo lugar. E você, só de turismo?”.
“To tentando encontrar meu EU interior”, sentei na grama e deixei que Lorena fizesse o trabalho sujo, podia apostar que comigo ao lado ela bateria seu recorde de espera.
E meia hora depois, “bom, vou ver se tem uma saída mais em frente, sorte”, virou as costas e seguiu caminhando.
“Hasta”, ela teria batido o recorde.

Mas contornando pela saída de Rocha vinha mais um joguete sacana do destino, de 52 anos e conterrâneo de Lorena, parou com sua vâzinha azul-escura e perguntou se eu queria carona até Maldonado.

“Isso é perto de Punta Del Este, certo?!”.
“É do lado”, embarquei. Ele acelerou fundo e encaixou a segunda marcha.
“Hey, ta vendo aquela moça?!”, apontei para Lorena, “conheço ela, não dá pra levar os dois?”, ele diminuiu e brecou o carro ao seu lado. Lorena subiu.
Minha apostasia ética deveria cobrar seu preço, e era uma boa hora pra retribuir em solidariedade envelhecida. “Obrigado pela carona”, agradeceu.
“São amigos?”.
“Não”, antecipou-se Lorena enquanto ajeitava a mochila entre as pernas.
“Mas você falou que conhecia ela”, virou-se assustado e com uma séria mirada acusatória.
“Mas eu conheço ela, há 15 minutos, mas conheço. Aliás, ela não é minha amiga”.
“Bom, então você deveria agradecer a ele que pediu pra eu parar”, disse a Lorena.
“Menos de 40 minutos, te falei”, piscou.
“Graças a mim, Lorena, não se esqueça”, dei de ombros. Tolstoi diria que estou plantando minha hortinha no céu, puxando o saco misericordioso do senhor, mas prefiro o método tosco dos Sem Terras Divinas invadindo os latifúndios eclesiásticos.

Franchesco nasceu na região central da Argentina mas morou oito anos em São Paulo, também passou pela Colômbia, Chile, Venezuela, Peru e África do Sul. Agora fincou raízes no Uruguai, país que adotou como seu. Ele conduzia a van sempre abaixo dos 100 km/h, mantendo o perfil sossegado do tráfego uruguaio por suas rotas sem curvas. Foi uma carona tranqüila, precisei falar pouco já que os argentinos trataram de deflagrar uma disputa para descobrir qual deles detestava mais intensamente Buenos Aires. Enquanto isso eu curtia silencioso a paisagem de gado e gado. E mais gado.
Um trecho de 100 quilômetros, Lorena desceu alguns metros antes de mim, ainda na Ruta, eu segui com Franchesco até o terminal de Maldonado, onde tomei um ônibus para o camping de Punta Ballena.
É um assalto os 120 pesos que cobram por uma mísera noite, isso que nem estávamos no verão. Tratei de logo preparar um pouco de soja, tomar um banho e dormir, iria despertar com o Sol na manhã seguinte. E ele aproveitava a brisa matutina quando abri o zíper da barraca, uma brisa suave e um pouco fresca, saudei-o e me respondeu com um bocejo, era cedo demais pra qualquer lucidez. Deixei a barraca fechada e fui conhecer um pouco de Punta Del Este antes de partir para Montevideo. Já próximo às 11 retornava ao camping para organizar o equipamento e seguir até a Casa Pueblo, última parada antes da capital – nada como uma caminhada de alguns quilômetros com 20 quilos nas costas e sem café da manha para começar bem o dia. Conversava com um jovem casal a medida que desarmava a barraca e socava o saco de dormir na mochila. Eles eram de Montevideo e aproveitavam uma brecha no trabalho para curtir o litoral. Éramos os únicos no camping naquela época de entressafra.
Acoplei o fardo nas costas, seqüestrei uma boa dose de fôlego e mantive um ritmo forte logo no início do aclive que me levaria à Ruta 10, o aroma do orvalho esquentando e escorrendo pelas copas amenizavam o trecho. Antes que me esforçasse para sugar a segunda dose de fôlego, um gol cinza parou ao meu lado e ofereceu carona até a Casa Pueblo. Era o casal do camping.
A Casa é o museo-oficina do escultor, arquiteto, cineasta e, antes de tudo, pintor Carlos Paéz Vilaró, com uma cafeteria exploradora de pingado a 60 pesos e uma vista mágica, que custa 100 pesos e hora e meia, no mínimo: acima da costa de Punta Ballena, roçando em esverdeadas ondas transparentes, lá ao fundo, o mesmo sol que bocejou pela manha sai de cena, caindo atrás do mar ao som do poema.

“Podia sacar uma fueto mia, por favor”, pediu uma jovem e bela turista.
“Si, claro. De donde eres?”.
“Brasil, e la fueto, aqui sim, faziendo un favor”, ela descartou a incrível vista da baía e se posicionou em frente à piscina do hotel.
“Ok, sin problema”, mas havia um problema, grande e conceitual. Ela me tomou como seu fotógrafo particular, só pedia fotos posadas com os dedos em “paz e amor” em frente à piscina do hotel da Casa, e mesmo com meu incrível fedor de suor – que afastava a todos os turistas em uma circunferência de segurança – passou a me seguir por todos os cantos. Será que algum psicanalista insano poderia me explicar o processo cognitivo que acontece – geralmente após um longo período de letargia – no cérebro desses espécimes femininos da alta súciedade quando seus poros Imperial Majesty desenvolvem uma epidérmica síndrome de Estocolmo ao sentir no ar o fresco fétido do sovaco de malucos mal vestidos, mal educados, nada simpáticos que exalam desprezo e fungos quando em contato com seus estrogênios rosa-pink? Como eu naquele momento.
“De onde você eres?”, perguntou.
“Que pides?”.
“Where are you from?”.
“Bem, como diria a canção, sou de um povinho ao sul dos Estados Unidos chamado Sul América, mais especificamente de um país miserável conhecido vulgarmente como Brasil”, ela pareceu ofendida, mas não o suficiente, continuou a perseguição pelas galerias da Casa. “Bem, eu vou entrar na sala de vídeo”, me referia a um local de introdução ao museu.
“Mas aí é só um vídeo chato, já entrei e não tem nada demais”, ensaiou um biquinho charmoso.
“Vejamos, somente a história inteira de Vilaró e da Casa Pueblo mas que realmente não têm nada demais já que estamos num belo hotel em Beverly Hills”, ela bateu a porta antes de sair.

Já passava das 12 e alguns passos distante da construção de Vilaró consegui uma carona rápida até a Ruta 10, na caçamba de uma saveiro. Então caminhei por 15 minutos até o KM 113, saída de Punta Ballena rumo à Montevideo, 119 quilômetros distante. Dessa vez o tempo não custou a passar, e quando tentou ser cauteloso com seus minutos uma caminhonete Chevrolette preta, quatro portas, encostou e dela saltou um rapaz jovem falando ao celular.

Logo sinalizou para que eu embarcasse na caçamba, “permiso, un ratito”, disse à pessoa do outro lado da linha, “para donde, muchacho?”.
“Montevideo”, respondi me aproximando.
“Bueno, vale, nosotros vamos para allá, te levanto”, subi na caçamba e ele ligou o motor.

Punta Ballena a Montevideo: vento na cara e outdoors embaçados desaparecendo em 120 por hora, pista dupla sem curvas nem solavancos por alguns pesos pedagiados. Ronnie Von dava sentido a tudo, embalávamos na “Maquina Voadora”.

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Lado A – Breve explicação

Abril 21, 2008 · 2 Comentários

Gostaria de começar com um simples esclarecimento: o porquê de coluna “Lado A”; até porque ela não se pretende tão lado A assim, mas terá um caráter mais formal ou menos Lado B. E essa condição se dá por um único fator; escreverei desde o conforto de um lar qualquer, muito segura e de estômago cheio em frente a um computador. Mais resumidamente, embora meu coração esteja também vagando nas 101 da vida, eu não estou na estrada.

Nada de fortes emoções por aqui. Apenas algumas informações gerais, notas e ou aforismos sobre os países sul-americanos além-Chuí que nosso caroneiro decidir percorrer.

Antes de ser incumbida dessa função não possuía grandes conhecimentos da cultura uruguaia. Eduardo Galeano, por exemplo, é de lá. Conhecia uma banda nada excepcional uruguaia “No te va a gustar”. Não poderia deixar de citar que já me haviam dito da similaridade de sotaques no Uruguai e Argentina.

Sabia da capital uruguaia algumas informações. Existia aí então um ponto de partida para mim (e de chegada para Junior) Montevidéu era rota certa para qualquer repórter-viajante, seja ele Lado A ou B.

Bienvenidos al Uruguay…

La Republica Oriental del Uruguay incorporou alguns aspectos da latinidade às avessas, talvez pelo fato de ter sido um país fortemente disputado pelas coroas portuguesa e espanhola. Tamanha foi a insistência dos respectivos tronos europeus em anexá-lo a terras argentinas e brasileiras que nos idos de 1823 e 1824 passou um período de sua História omisso às determinações portuguesas advindas da cidade do Rio de Janeiro.

No entanto, logo em seguida, tornou-se independente de qualquer domínio luso-brasileiro. Assumindo a partir de 1825 outra de suas características bizarras: integrava a lista de países hispano-americanos e não tinha nem San Martín e tampouco Simon Bolívar como libertador. Distanciou-se também da História fajuta de liberdade concedida à terra brasilis.

(Algumas insurreições populares contra o domínio português, dessa vez, “unificando” ideais blancos e colorados e viram-se livre da Espanha também).

Outro aspecto de destaque são os bons índices de escolaridade, IDH, o mais antiiiigo sistema de previdência social do continente, baixa taxa de analfabetismo, etc, etc, disputando sempre com o Chile, obviamente.

Mas, é claro! Não poderia fugir tanto à regra. Afinal não compartilhamos com nossos hermanos apenas o mesmo continente. Compartilhamos, sobretudo, tragédias decorrentes de aaaaanos de exploração. Não importa se portuguesa ou espanhola.

O Uruguai também reparte com Brasil, Argentina, Chile e Paraguai vergonhosos (e árduos!) anos de repressão à liberdade. Todos eles foram acometidos por Ditaduras Militares ferrenhas, e envolvidos em um esquema de “caça às bruxas” generalizado conhecido como Operação Condor.

E isso (Condor: uma ave bastante recorrente nos Andes e astuta por demais em suas caças) concedia direitos aos governos de recuperar fugitivos de outras nacionalidades em seu território e devolvê-los aos seus países de origem, onde eram devidamente presos e torturados.

…Mas enfim…já se passaram 28 anos desde o fim da Ditadura Militar uruguaia. E atualmente o país carrega boas cifras relativas às questões sociais (se comparado ao resto dos mortais territórios latinos)…

Enfim (2)! São 3,5 milhões de habitantes possibilitando uma frota considerável de carros, caminhões, motos e até bicicletas. Só espero que os uruguaios tenham bons corações para carregar mais um brasileiro. Só que dessa vez, terra adentro.

                                                                                                  Aline Vessoni

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A Quinta

Abril 13, 2008 · Deixe um comentário

 

 

Estalei a moeda entre os dedos – Cara .V.S. Coroa – 10 centavos espalhando-se num pequeno rodopio catapultado, subindo e descendo em voltas. E na palma da mão, Coroa: para a esquerda, direção Posto BR, indicava o destino. Ele nunca foi um bom conselheiro, ao menos para mim, guardei a moeda no bolso e girei à direita. Sempre preferi Cara. Mais um quilômetro e meio até o Posto Latina, o que na somatória contabilizava uma caminhada matinal de sete mil metros desde que o intermunicipal me largou próximo ao centro de Guaíba. Manhã úmida atravessada por um sol suave, que esquentava os celsius no ritmo alucinado dos segundos. Quatro caminhões no pátio, um deles com placa de Rio Grande, outro de Pelotas – duas cidades que estão no itinerário até o Chuí, objetivo da vez. Mas ambos seguiam para São Paulo enquanto os demais aguardavam contêineres de Porto Alegre. Descansar as costas e medicar as bolhas para sufocar os minutos e acariciar a esperança, era apenas 8:15, logo alguém pararia para um café. Gostei de jogar no plano A dos mochileiros, ele estava sendo generoso comigo.

A parte boa é que estoquei algumas doses de ânimo durante os cinco dias que permaneci em Porto Alegre: quando os caminhões deram início a sua sinfonia de motores, as 7:00 da madrugada no pátio da Gerdau, só me restou levantar acampamento, pegar o treco até o Parque Redenção e bater à porta da FAG (Federaçao Anarquista Gaúcha).

“Hei, pera aí, eu lembro de você”, comentou Alex, membro do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis) e integrante da Federação tão logo me viu.

“Olha só quem tá aqui! Esse é o cara da cueca, tu não lembra do ano passado?!”, reconheceu Eduardo, do secretariado. Ele se referia ao dia do trabalhador de 2007 em que a FAG embrenhou-se num evento esquizofrênico entre bandeiras trotskistas e as mais bizarras agremiações partidárias. Um ato difícil de ser compreendido por um anarquista inexperiente como eu, ainda que defensor da tendência especifista. Aquilo soava como traição, neo-marxismo perneta e por isso só me restou dançar frevo com uma cueca suja de merda sobre a cabeça. Descascando nas incompreensões mais obtusas, irrompi a criticar tal postura inflamada em síndrome bipolar, deveras complexa para quem nao vislumbra o anarquismo atual como desbravador de novas estratégias – e isso competia à FAG, não a mim, eu não era sequer um bandeirante tático, apenas um profeta do caos, um simples transgressor de estratégias. “Balaclavas” foi o grito dessa incompreensão, a agora ali estava eu novamente, ainda transpirando caóticas profecias, para um 2º round de imersão.

 

E emergir desde a inércia não é fácil, o corpo pede um tempo extra de repouso e a cabeça trinca só de lembrar que este mesmo tempo nos afoga a cada segundo mais numa solidão peregrina. “Seu Renato” a tomou nos braços quando topou me levar até Rio Grande, pouco mais de uma hora depois que selei os curativos dos pés. Um mercedes velho, amarelo-ovo; e um motorista manco, menisco saltado.

 

“14 anos trabalhando com mudanças e mais cinco com transporte de construção civil, fora os outros trabalhos, tudo trabalho duro, tudo pesado, mas aqui to eu, por isso que eu digo, se não morri é porque o trabalho não mata”, mas esfola, que o joelho esteja como testemunha. Aos 47 anos, mas com semblante de sexagenário, firmou parceria com o genro “colorado roxo” e há um mês dirige o mercedinho.

 

“Seu Renato” é homem de fala calma e pausada, um sussuro agudo pouco mais alto que o ronco desgastado do motor, mas que por vezes era tomado por ele. É um motorista que te faz agradecer por ter poupado alguns reais e dado de ombros às empresas de ônibus: na condição de caroneiro não se pode entupir os ouvidos com fones ou abrir um livro e partir para o conhecido estratagema dos passageiros de ônibus, ignorar-se mutuamente, em especial aquele que se senta ao lado. O caroneiro assume um contrato tácito de trocar experiências, por mais desgastante que seja, por mais engrandecedor que machuque o nosso espírito estanque, viciado em inércia.

 

“Eu acho que esse negócio de viajar”, falávamos sobre o “Raul Do Que?!”, “é uma opinião minha, acho que você tá certo, tem que aprender com a vida e a melhor época é a juventude. Eu perdi a chance, sempre sonhei em servir a marinha, mas naquele tempo não tinha em Rio Grande. Eu tinha 18 anos e não fui pro Rio porque meus pais pediram, tavam com uns problemas conjugais, mas faltou mesmo foi coragem”, perdeu também a oportunidade de seguir à Macapá com um capitão da marinha, a entrada de serviço para seu sonho, um senhor para quem trabalhou durante anos. “Eu tava namorando, não quis ir pra nao deixar a menina, no final não fiquei nem um ano com ela, faltou coragem de novo”.

Mas rodovia da vida é feita de trevos, contornos e rotatórias. Meses mais tarde, aos 19, “Seu Renato” aderiu à pedofilia bem intencionada e passou a cortejar uma rapariga de 12 anos, “todo mundo foi contra, achavam que a gente tava louco, eu principalmente né! Ela era quase uma criança e tivemos que namorar dois anos escondidos porque a avó dela não aceitava de jeito nenhum. Mas aí ela ficou grávida e tiveram que dar o braço a torcer”. O resultado desse imbróglio todo são 28 anos de casamento sem uma única briga: “minha mulher nunca me mandou à merda, nunca me xingou, a gente sempre resolve conversando quando tem algum problema”, seis filhos criados na mesma casa com mais quatro sobrinhos, um neto e “a melhor companheira do mundo, trabalhadora, carinhosa, foi minha sorte na vida”.

A conversa rodava nos 75 km/h do caminhão, na reta interminável que é a 116 sentido Pelotas, cercada de morros que a natureza trata de esticar lentamente até convertê-los numa planície permanente, topografia de soja, pecuária e banhados de arroz. “Seu Renato” passa a impressão de que sua história o fez agigantar-se frente ao mundo, ecologista rígido, guarda nessa defesa da saúde do planeta o embrião pouco desabrochado de revolucionário, “não acho, de verdade, que quem rouba é ladrão, que rouba pra comer, pra ajudar os outros, pra distribuir, errado é roubar de quem não tem, de quem tem menos que você, de trabalhador, quem faz isso sim é safado, e a maioria desses é rico, é milionário”. Para ele, aquele que rouba por um motivo nobre está apenas recuperando a dignidade que lhe haviam tomado. “Seu Renato”, em outras palavras, teorizou o ato de expropriar – Osvaldo Bayer ficaria orgulhoso.

 

“Anarquistas Expropriadores”, de Bayer, pingando poeira na sala de entrada da FAG,  sempre o sacava para ler um trecho aleatório. A expropriação é uma atitude permanente se a toma numa acepção individualista, neurônios e corrente sanguínea, sinapses e miocárdio em expropriação mútua, contínua e imprescindível. As atividades da maior organização anarquista do sul do Brasil são amplas e pontuais, giram desde grupos de estudos para iniciantes – que podem ir de críticas ao foquismo da revolução cubana ou mesmo textos clássicos de Bakunin ou Malatesta -, apoio organizacional ao MNCR, combate sindical, até trabalho de base com cursinhos e assistência em bairros como a Restinga. É uma resistência política desnudando o social, com marcada tendência especifísta que está absolutamente aberta a peleias conceituais. Mas é resistência.

Dois dias antes de deixar Porto Alegre fui a uma entrevista com Helios Puig – militante sindical desde a ditadura, filho de um importante combatente da CNT espanhola durante a Guerra Civil e desafeto notório da FAG. Uma conversa tranqüila e cheia de histórias de luta contada na sede da COB (Confederaçao Operária Brasileira), mas que levou mais de três horas, e como já não havia mais ônibus nas ruas naqueles primeiros 20 minutos da madrugada, o jeito foi caminhar até o Garagem Hermética, bar próximo onde um amigo trabalha na portaria recolhendo os tickets. Para dormir era preciso esperar a banda encerrar os trabalhos, lá pelas quatro da manhã, já que sua casa é exatamente embaixo do palco e os caras não paravam com aquela masturbação canhota de Deep Purple renderizado. Enquanto a polícia espancava alguns punks no boteco da esquina, eu contava para Porkão e Douglas um pouco das horas com Puig, especialmente as partes majoritárias, a peleia FAG X COB: Puig nao aceita as estratégias da FAG e acusa seus padrinhos, a FAU (Federaçao Anarquista Uruguaia), de castrismo. Ele não pode concordar com uma militância anarquista dentro de centrais como a CUT ou a INTERSINDICAL. Eu tampouco concordo, passo longe da aceitação e pontuei essa como minha principal crítica à FAG. Entretanto, no decorrer dos dias que permaneci em Porto Alegre pude colecionar discussões abastecidas à gasolina aditivada sobre este assunto com os membros da FAG. Eles abandonaram a CUT e optaram pela INTERSINDICAL, órgão que segundo sua análise conjuntural ainda conta com brechas políticas onde fincar a vertente anarco-sindicalista. Desta maneira, mesmo dentro de uma central tão pluralista que chega a se dissolver num assopro, é possível demarcar um terreno de atuação. Além do principal, atuar e atuar, distanciar-se do isolamento. Isolado o anarquismo se nutre de purismo, mas morre por entupimento coronário decorrente de sedentarismo crônico.

 

“Eu ando de bicicleta sempre, não dá pra ser sedentário, tem que movimentar o coração senão ele acostuma a parar, e como o joelho não me deixa mais bater uma bola comecei a pedalar”, contava “Seu Rentato” quando encostou o caminhão na saída de Pelotas, “vamos comer alguma coisa”, já passávamos das 13:30 e eu não tinha nem o café.

Na TV o noticiário descrevia a péssima situação carcerária e nós nos serviámos de batatas e feijão. “Tenho um irmao que esteve preso”, apontou para o televisor, “era trabalhador, honesto, trabalhava de guarda e sempre que acabava o expediente ele tirava as balas do tambor e guardava no bolso pra evitar qualquer perigo. Um dia ele tava saindo do serviço com um amigo que também era guarda, e ficou conversando com o cara que tava sentado num banquinho na frente dele. Tudo numa boa, um dia normal de trabalho, meu irmão tirou as balas do 38 e guardou no bolso como sempre, girou o tambor e pra conferir apertou o gatilho. O tirou atravessou a cabeça do amigo, matou na hora, ele não acreditou, disse que a primeira coisa que fez foi tirar as balas do bolso, mas só tinha cinco”. A sexta levou o irmão de “Seu Renato” para a cadeia por 3 anos e meio, homicídio culposo, ele pediu para ser preso, se apresentou e confessou o crime, “meu irmão diz que vê a cena toda noite e sempre acorda com o rosto do amigo na cabeça, nunca mais foi o mesmo, hoje tá avoado, sempre pensativo e deu pra beber”.

“Seu Renato” me largou na “Quinta”, trevo entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. O entrocamento estava em manutenção, por isso os veículos se detinham alguns minutos esperando o desbloqueio do fluxo.

Foi uma sorte! Pois dessa maneira é possível tentar carona no boca-a-boca e em menos de uma hora já estava dentro de um gol cinza rumo ao extremo sul do Brasil. Casal muito simpático, o senhor era uruguaio e me contava sobre os lugares interessantes para conhecer no país, enquanto sua esposa comentava a respeito do filho que tinha minha idade e estudava publicidade em Florianópolis. Menos de 200 quilômetros pela BR 471, continuação da 116. Igualmente sem curvas, à direita plantações de arroz, à esquerda pecuária, sempre e até o horizonte. Abruptamente à direita cambia para pecuária e à esquerda, arroz, sempre e até a reserva ecológica do Taim. Então surgem pássaros, jacarés, alagados e capivaras por uns poucos quilômetros. Depois, arroz e gado, gado e arroz. Saltei na entrada de Santa Vitória e resolvi tomar um intermunicipal até o Chuí, 15 quilômetros adiante, um bairro de Santa Vitória até 1995, emancipado para converter-se no penúltimo lugar mais austral do Brasil.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Os impostos que a sorte cobra…

Abril 6, 2008 · 2 Comentários

…EXTORCIVOS! Põe na conta, débito automático, limite-negativo, um estouro, uma embriaguez de (des)crédito, e então vem os juros, sobre os juros, juros, ABUSIVOS, os juros que o azar cobra, com juros. R$ 2.50 até o TICEN + um pulo até o Terminal Velho + R$2.50minutos até o trevo de Palhoça = chuviscava mas o sol fervia as nuvens, e nos timpanos Charly Garcia e Nito Mestre davam as boas vindas a Cassandra. Pensei em subir o polegar na entrada para 101 mas um posto logo adiante me fez repensar a estratégia. Era hora de dar uma de Vo Nguyen Giap e testar táticas diferentes. Até então minha tentativa única foi estender o dedo ao lado da rodovia e atentar para o giro do motor, já passava da hora de testar o plano A dos mochileiros: “Posto Esso Grande Parada”, 12 caminhões, 8 carros e uma central de fretes. Comprei um maço de cigarros e acendi o primeiro deles ainda dentro do restaurante, eu era novamente um amador e precisava analisar o terreno pra mexer as peças, mudar a tática tem seus riscos..

“Se quiser carona o melhor lugar é na saída”, aconselhou um senhor de rala barba grisalha e pelos saltando da camisa aberta.
“É justo o que preciso”.
“Tá indo pra onde?”.
“Porto Alegre, mas acho dificil chegar até lá ainda hoje, já são 15 pras 11 e raramente descolo uma carona só até o destino, pra falar a verdade isso ainda não aconteceu”.
“Se fosse a 30 anos atrás eu te ajudava, sempre fazia esse trecho no dedo”.
“E agora o senhor é caminhoneiro?”.
“Não, faço entregas aqui na região de Palhoça”.
“Fuma?”, ofereci um cigarro reparando em seus dedos um tanto amarelados.
“Não não, não faz isso rapaz, eu parei, não não, to tentando parar, já faz alguns anos”.
“Bom, se souber de alguém”, acendi outro cigarro e estiquei a pegada segurando a fumaça sob pressão até o esofago, “que estiver descendo me dá um toque”, soltei a bruma de alcatrão em rodelas de nicotina.
“Podexá”, mirou enciumado, “mas me ve um cigarro aí vai”.
“Tem certeza? Isso dá cancêr, reumatismo, ataca a fimose”, olhei fundo, “você não quer isso, a gente fica broxa por conta dessa merda, e com mau hálito”.
“Só um”.
“Tudo bem, eu te entendo”.

Havia três caminhões com placas de Porto Alegre, mas todos rastreados e de grandes companhias transportadoras, uma raça conhecida e nada admirada por mochileiros. Eu imaginava a resposta, e ela veio das três direções: “Até te levava, mas a empresa não deixa, se me pegarem é justa causa na hora”, e apontavam para o adesivo colado à porta, “Proibido Carona”. Por tentativa e erro topei com Pingo e Alexandre, dupla que viaja em conjunto levando maquinário pesado em cavalos de mais de 2400 metros de comprimento, “a gente tá indo pra São Paulo pegar carga, tamo vazio, só vamos esperar a ligação da empresa pra confirmar”, fiquei com a promessa de que me avisariam caso soubessesm de algum colega rumando pro sul.
O fluxo de veículos crescia junto à circunferência do ponteiro, ainda sinalizando o noroeste, e não me restava outra opção que relaxar os ombros. Do estacionamento do restaurante eu desenhava com as retinas o contorno distante dos morros de Florianópolis, cidade bacana que peca por excesso de carisma, capital com ares provincianos bastante conhecidos, botecos que fecham a meia noite e restaurantes que não abrem no domingo, problemas pra comprar cigarros após as 23 horas, micromegalópode, onibus caros e manezinhos da ilha, entre os indies cosmopolitas de Curitiba e os gaudérios de Porto Alegre, um punhado de bicho-grilo, e em Saco dos Limões a casa do Pedro. Era tudo que lembrava dos quatro dias que passei ali, colocando as anotações em dia, bebendo cerveja e revendo velhos amigos.
Os caminhões se multiplicaram por brotamento de acordo com raio olfativo da carne tostando no restaurante “Grande Parada”. Somavam-se novas opções táticas, mas enquanto lá dentro elas descarnavam no buffet o lombo grelhado, o melhor a fazer com o meu lombo era descansá-lo. E trocar ideia com Oswaldo e Orlando, um caminhoneiro aposentado e outro vendedor de cd’s pirata. Na falta de um playstation, futebol e dinheiro, fizemos um pequeno bolão de desvalidos, quem acertasse o motorista que me daria carona ganharia a admiração metafisica dos demais. O problema é que nenhum de nós possuia genes de Nostradamus e assim nossa aposta se queimou numa sequencia interminável de fracassos.
Os mais apressados começavam a deixar o restaurante e eu os aguardava como um serial killer digerindo futuras vitimas. A dramaturgia da carona só existe flertando com a improvisação, é preciso conquistar o publico unitário num ballet balanceado de espontaneidade e discurso agendado. Nosso bolão não conhecia vencedores, e como notoriamente eu era o grande perdedor travei um duelo interno de paciência, um jogo de riscos menores e seguidos desapontamentos. O fluxo no restaurante seguia aumentando, e minha sorte os analisava com lentes de grau atrvés de uma mira de snipper.

“Ta querendo carona, gente boa? Anda logo, vamo nessa”, e assim me tornei o Gente Boa, membro temporário da dupla gremista Pingo & Alexandre, Alexandre & Pingo.
Acenei para que esperasse eu pegar a mochila e caminhei até Oswaldo e Orlando, “todos aceitam o empate?”, sugeri jogando meu fardo sobre a coxa direita para enlaçar o ombro.
“Por mim tudo bem”, gargalhou Oswaldo mostrando a gengiva e uma meia dúzia de dentes, “esse trem é maior que tú rapaz”.
“De onde surgiu esse homem?”.
“Eu tinha pedido carona pra ele há uma hora atrás,tavam indo pra São Paulo mas pelo jeito mudaram de ideia”, deixei para trás as horas de apostas para subir na Scania 96 de Alexandre.

Gabine alta, PX(rádio) chiando e nada de encosto no banco do carona, o jeito foi posicionar a mochila na horizontal e usar ela como escoro durante a viagem: invertemos os papéis, agora eu era o fardo.

“Vocês vão até Porto Alegre? É sério?”, a sorte entrava em cena, 364 quilômetros dela, havia ficado na espreita por mais de duas horas analisando onde a tarifa atingiria mais fundo, são impostos impiedosos,pagáveis somente a base de empréstimo, e com eles os juros, os juros do azar. Uma matemática macabra e
exponencial.
“Tu vai até onde?”.
“Porto Alegre mesmo, é que não esperava conseguir uma carona direto”, mudaram de rumo por uma negociação cancelada pela empresa, a nova ordem era retornar à central. Bom pra eles, bom pra mim.

Moreno, gordinho que esconde uma apurada sensibilidade atrás da voz rouca, 10 anos de boléia em 31 de existência, Alexandre é um dos poucos estranhos que
conheci com quem é possiível compartinhar o silêncio sem constrangimento algum. Na psicologia caroneira é preciso treinar a audição, estar inteiro para desabafos e pronto para respostas inofensivas com doses controladas de sarcasmo, se este for um ingrediente aconselhável, e é neste ponto que entra o tato. Você transmuta-se num amigo temporário, terapeuta mudo que quilômetros adiante retorna ao estado original de completo desconhecido. A boléia passa a ser um confessionário, e o carona o padre sem o direito de punição, perfeito. Mas esqueça todo esse contrato quando o motorista em questão é Alexandre, não precisávamos forçar o papo, ele surgia espontâneo sempre que algum tinha algo a dizer, o que era raro, simples assim. Na maior parte do tempo riamos das palhaçadas soltadas pelo PX por Pingo, um membro honorario do clã “Tiozão Jovem” na linha cavanhaque de malandro com óculos de surfista e pança de choop. Só faltou o peito peludo.

“Chegando em casa preciso cravar na morena”.
“De quem tu ta falando?”, perguntou Alexandre.
“Daquelas duas que passaram”.
” De quanto?”.
“Uma de 20 e outra de 25, mas barbaridade guri, somando não da 10 pelas duas”, Pingo só não gostava mais de caminhão porque era tarado por mulher, e possuia um julgamente impressionantemente flexivel nos quesitos silueta, curvas, beleza e rebolado.
“E a tua?”.
“A minha morena FreeWilly, preciso cravar nela quando chegar”, uma doçura falando de sua esposa grávida.

Cortávamos Laguna, a leste as baixas dunas formando um tobogã rumo ao mar, a oeste a Lagoa, imensa, imensa, um pequeno oceano distante do mar atravessado pela 101. Na beira os pescadores remando botes em pé ao contorno das iscas de camarão, até terminar num banhado de plantações de arroz.

“Segura que ta falhando, segura que ta falhando”, era o começo da alta tributação da sorte.
“Estica, estica!!!”, gritava Alexandre já enconstando a Scania. “Qual o trato aí?”.
“To sangrando a bicha”, o Mercedes 94 de Pingo era um carma que carregariamos em toneladas. “Simbora, simbora que não arriou”.

Mas 10 quilômetros adiante arriaria, na pista em obras de revitalização em frente a entrada de Moinho Bacana. Alexandre saltou e juntos inverteram a borracha, limparam o tubo e apertaram a rebimboca doando ao Rapozão de Pingo uma sobrevida indefinida entre metros ou centenas de quilômetros. Tudo dependia da maldita sorte, e ela nã estava de bom humor. Pingo e eu fumamos um cigarro para comemorar quando o motor roncou. Cedo demais, 15 quilômetros depois, já em Tubarão, a parafuseta enroscou novamente. São os impostos que a sorte cobra… esó nos resta parcelar…

“Estica, estica pra espixar”, comandava Alexandre enquanto eu rezava para aquilo não fazer sentido somente pra mim.
“To espixando, to espixando”.
“Espixa que emparelha, espixa espixa”.
“To espixando, to espixando”.
“Sangra sangra sangra”, repetia no PX.
“Toca aí que alinhou”, e assim Alexandre ia ensinando os atalhos para o companheiro, na boléia há apenas seis meses.

Pingo sangrou o bicho ainda em movimento e seguimos em frente, para parar de novo no retorno da 101 para Morro Bom, cravando a embreagem e largando o peso até o Posto Planalto. Enfiaram o alicate e o Rapozão voltou a esguichar sangue amarelado. Tocamos para Içaras onde a empresa era conveniada, hora de abastecer oleo e diesel para então grudar o acelerador no fundo, 70 por hora, duas flexas de 2400 metros somando horas e horas de atraso.

Mas logo depois, “Empinhou de novo, segura!”.
“Emparelha, estica isso aí”, funcionou.
“É só encher a pança do bicho que ele pára de reinar”, e depois de sete horas e apenas 176 quilômetros de estrada o Rapozão acalmou, não havia tempo a perder. São os impostos que a sorte cobra, e os juros seriam debitados em breve.
Rodávamos pelo sul de Santa Catarina, a escuridão concorria com os faróis em curvas leves. Uma direção monótona, até que um Volvo azulado apontou pela esquerda no final da curva raspando o retrovisor da Scania. Alexandre cortou a pista para a direita: “OOO PUTA QUE O PARIU”, agora ele seguia embalado pra cima de Pingo. Alexandre tomou o PX e avisou: “Não diminui e joga pra direita devagar que tem um louco atrás de tu”, tarde demais, o Volvo rasgou a faixa ao lado do Rapozão tomando meia pista e obrigando Pingo a comer acostamento exatamente em baixo de um viaduto.

Buzinas, buzinas, putaquepariu, buzinas, buzinas, filhadaputa, buzinas, vátefude, bíííí-bíííí, fooooooooommmm, vagabundoaloprado e mais buzinas, e Pingo no PX: “Depois ta de cu pra cima e a gente passando devagar do lado, puto do caralho”.
“Positivo”, e acalmado.

Menos de 50 quilômetros adiante passamos lentamente pelo mesmo Volvo, capotado, “de cu pra cima o bagual”, parece que passou reto na curva e rodou barranco abaixo. Pingo sim tinha genes de Nostradamus.

Depois do Volvo o caminho voltou ao mesmo marasmo, todos acima de 75 por hora nos ultrapassavam, e nós no mesmo ritmo cadenciado. No silêncio escurecido eu matutava: após mirar certeira na minha primeira carona direta, sem aparentes atrasos de baldiação, após eu ter caído inocente nesse blefe da sorte e de ter aceito seus altos impostos, a sorte agora parecia se divertir com meu pagamento parcelado. O problema é que quanto maior a parcela maiores os juros imbutidos nela, e a vida não costuma abrir mega-promoções de juro zero, a vida não costuma abrir nada, só fechar. As 21 horas concordamos em unissono que era uma boa hora de parar, esticar as costas, tomar um café. Pingo e Alexandre aproveitariam o ensejo para arrancar os fungos e bactérias do corpo à sabonetadas, tudo em consideração a suas esposas. Descobri uma sala onde havia uma térmica com café fresco, entrei sorrateiro e a surrupiei. Quatro copos de cafeína e dois sabonetes depois estavamos os três choramingando ao lado do moribundo Rapozão. Não teve massagem cardíaca que reanimasse aquele Mercedes: trocamos as baterias, chave de fenda direto no motor de arranque, amarramos a Scania e tentamos no tranco. Mas nada, nem sinal, era o fim. A ordem da empresa foi clara, eles deveriam passar a noite no Rodorede Ipiranga, a 100 quilometros de Porto Alegre, e na manhã seguinte procurar um eletricista. 10 horas depois de Palhoça os juros começaram a ser debitados. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
O problema é que minha sorte as avessas tinha um árduo competidor. Alexandre não era daqueles que deixariam um quase-desconhecido completamente sem rumo e sem teto. Pagou-me um lanche, acelerou a Scania por mais alguns quilômetros até o próximo posto em direção a capital gaudéria e passou a fazer uma campanha publicitaria no melhor estilo marketing de guerrilha para descolar uma carona e cumprir o prometido quando aceitou me levar.
Anderson topou, conhecia Alexandre de outras rodovias e resolveu ajudar. Ele estalava os olhos de sono, também precisava de um papo se quisesse chegar inteiro no destino. Subi no Mercedes 95 e vi Alexandre tomando o primeiro retorno. Era hora de recomeçar o mesmo preâmbulo de sempre: Anderson, 38 anos, caminhoneiro há 2, tenista há 1, salta de asa delta há 10, vende carros, é dono de uma loja de aluguel de vestidos de noiva, e agora começou a estudar a bolsa de valores para investir em pequenas empresas estrangeiras que estão se instalando no interior paulista. Chapeuzinho de cowboy e shorts de futebol, escuta Bon Jovi, Bananaramas, James Brown, A-há e Billy Ocean. Um sujeito policromático que cochilava no volante com o pé em cima do painel e mesmo assim segurava o Mercedes retinho na faixa do meio da Freeway. Pagaria uma caixa de cerveja pra assistir “Curtindo a vida adoidado” no Cinema em Casa com esse cara, só pra me decepcionar. Ele não falava muito, e quando falava era para dissecar uma nova teoria econômica que poderia ajudá-lo na bolsa ou para contar sobre horas que passa voando, fazendo rodopios para testar a segurança do equipamento: “já tentei quebrar a asa delta várias vezes no ar, fazendo espiral até vomitar de tonto, nunca consegui”, ou muita incompetência ou muita sorte.
Chegaríamos em Porto Alegre depois da uma da madrugada e eu não tinha noticias de Raphael, meu contato em Canoas, desde as 16 horas.

“Você vai até onde Anderson?”.
“To com uma carga de vergalhão, vou parar na Gerdau e dormir lá”.
“Poxa, tem lugar lá? Não consigo falar com meu camarada de Canoas, tenho que descolar um canto pra esticar as pernas”.
“Olha, não sei, eu durmo no caminhão. Eu sei que lá tem uma sala de espera, se quiser tentar…”, eu não queria, mas precisava.

A sala na verdade é na verdade um banheiro fedorento cheio de cadeiras, onde o nitrogênio compete com os pernilongos em porcentagem no ar. Sem chance. Na entrada do parque de caminhões da Gerdau havia um gramado e algumas árvores, seria ali mesmo. Enconstei a mochila num tronco e saquei a barraca no momento que o relógio marcou duas da manhã. Quando já me preparava para entrar, um segurança se aproxima lentamente com uma lanterna nas mãos, passa o foco pela barraca, ilumina meus olhos e não pronuncia uma palavra. Já sem um pingo de paciência na reserva, faço um sinal de positivo tentando uma breve comunicação, ele observa uns poucos segundos e retribui. Meu ar de cansaço salvou a noite.
Impostos pagos, e com juros. Futuro aguardando tributação.

 

 

 

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A solidariedade está inflacionada

Abril 2, 2008 · 2 Comentários

32º e o sol rasgando a pele. A 101 é uma rodovia sem coração. Km 42, fodido seja. Quanto maior o volume de veículos mais fácil à carona, esse é um calculo simples, simples demais, e nada na 101 é simples demais. Havia dois pontos passíveis de jogar o dedo pro alto e fazer cara de bom menino: a saída de Joinville e o viaduto que a corta seguindo diretamente para Florianópolis. Nenhum deles funcionou, nenhum deles tinha uma porcaria de sombra. Quando me despedi da família de Marly, logo após o almoço, imaginei que chegaria na capital catarinense antes das 18 horas, com sorte numa só carona. Agora estava há duas horas debaixo de um calor truculento e ao lado de uma rodovia impiedosa. Assando em fogo alto e rajadas de bafo quente. Resolvi caminhar alguns metros e comprar uma água gelada num restaurante próximo. A garçonete sugeriu que eu seguisse mais meio quilômetro ao sul e tentasse a sorte na última saída da cidade. Nada mal, os carros contornavam lentamente e assim era possível um contato olho no olho. Uns viram a cara, outros exercitam a indiferença, mas a maioria simplesmente gira o dedo indicando que vai tomar o retorno no próximo trevo. O contrato era claro e todos sabiam a verdade, era uma limpa jogatina de hipócritas: o trevo não existia e eram eles que estavam no ar condicionado.
Eu começava a contabilizar o tempo perdido, reorganizar o cronograma e traçar uma nova rota caso precisasse voltar à Joinville, exausto. Pelo viaduto vinha uma Saveiro em baixa velocidade, eu não estava posicionado, pensava na vida e escutava os conselhos de Erasmo Carlos pelo fone, mas lancei o polegar no momento que ele passava para então retomar minha aritmética estratégica. Eu ligaria para Marly às 19 horas, com isso ainda me restava uma hora de caminhada até sua casa. Então ouvi uma porta se fechando atrás de mim, era a Saveiro branca e um rapaz loiro abrindo a capota entulhada de caixas. Imaginei que estivesse conferindo a carga, mas não custava tentar.

“E aí amigo, ta indo pra onde?”.
“Balneário, mas o carro ta cheio, não sei se cabe você”, disse já abrindo a porta do carona e mostrando quatro caixas sobre ele. “Se não fosse tua mochila rolava”, eu e meu malfadado, imprescindível e pesado fardo.
“Infelizmente não posso deixar ela por aqui, ela não vive sem mim, sabe como é?!”.
Ele riu, coçou a barba rala e tentou encontrar uma solução, “rapaz, ta difícil viu, você ta aqui faz tempo?”.
“Não, não muito, só duas horas e 40 curtindo um sol no acostamento”, tentei engolir o pessimismo e jogar com a simpatia, às vezes funciona.
“Caramba, então vamos dar um jeito de você caber aqui”, isso era exatamente o que eu queria ouvir.

Alexandre, dono de uma transportadora de alimentos, dava as ordens, mas mesmo com muita boa vontade não conseguimos alocar nenhum mísero caixote na capota. O jeito foi abrir caixa por caixa e acoplar os pacotes de cookies integral atrás do banco, dobrar o papelão que sobrou e posiciona-los entre a marcha e a trava do cinto. Quando sentei alguns cookies ruíram e os pacotes gemeram, a mochila ficou no meu colo, em diagonal do joelho até o queixo, e seguimos rumo a Balneário comprimidos como os ingredientes de um comprimido relaxante.
O motorista possuía uma combinação conhecida: barba loira, retraído, falava pouco e com acento “leitE quENtE”, eu podia apostar que era um típico curitibano polaco.

“Tu mora em Balneário?”, dei a partida.
“Moro sim, já faz um tempo”, respostas curtas, mais um indício.
“E da carona sempre?”.
“Velho, não dava, mas aí um amigo resolveu viajar até os Estados Unidos de carona, aí eu fiquei pensando melhor no assunto”.
“Caralho, até os Estados Unidos??”.
“É, mais ou menos, ele foi até um pedaço assim aí comprou uma moto, acho que antes da Colômbia, mas o pai dele tinha uma boa grana pra bancar isso tudo”.
“Báh, mas ainda assim o cara é corajoso”.
“Ele ficou um tempo por lá e depois pirou de ir pra Índia, voltou transformado, casou e vive nos Estados Unidos com a mulher”.
“Feliz?”.
“Muito”.
“Então ta valendo. Tu não é de Balneário, certo?”.
“Não não, sou de Curitiba”, aham!
“Ahhh, eu sabia. Tava morando por lá antes de me embrenhar na estrada”.
“Você deu sorte, eu não ia ta rodando hoje, mas um caminhão da empresa quebrou e eu tive que sair de Santa Catarina pra pegar essa carga no Paraná”.

Não conversamos muito, dois paranaenses se entendem melhor no silêncio, ao menos na maioria das vezes. Ele acelerava fundo, tesão por velocidade, naquela mesma manhã, ainda em Curitiba, emprestou a moto turbinada do irmão e rasgou a 376 esticando o motor no limite. Só pra curtir a adrenalina.

“Eu sou mais uma Harley, rodando a 30 por hora numa rodovia movimentada naquela barulheira toda, maior tiozão”, balanceei.
“Ah não, eu curto rotação alta, gosto de ver o ponteiro subindo”.

Alexandre me deixou na terceira e última saída de Balneário, todas desembocando na 101, dessa maneira o fluxo seria maior e eu retornaria ao cálculo simples, simples demais: essa rodovia não tem coração, sequer um de asfalto e piche. Nela a solidariedade está endividada, inflacionada, inflacionada demais.
Ali, na beira da estrada, o tempo corre como um maratonista exausto e o sol é o relógio em espiral. Ele gira lentamente e cai por trás da serra na maior calma, a meio mastro, extinguindo milímetro por milímetro.
Logo percebi que aquele era um dia de provações, por mais que eu arriscasse vagar pelas saídas de Balneário tentando todas as alternativas possíveis, não havia método melhor que esperar. 90 quilômetros, 90 malditos quilômetros até Florianópolis, era tudo que eu queria. De longe comecei a percorrer com os olhos o sentido do ônibus municipal, talvez um camping fosse necessário para aquela noite.
Um leve entardecer já coloria com um vermelho sangue o asfalto, eu mantinha o braço direito estendido e o dedo em riste, mas o calçava com o pulso esquerdo, já não suportava o cansaço e o começo das câimbras. Pouco tempo depois um Gol cinza novinho contornou a última saída de Balneário e seguiu lento em minha direção, sem dar seta para esquerda indicando a 101. Acelerei os passos, era um senhor de barba e cabelos grisalhos, com ar jovial e aspecto sério. Ao me aproximar da janela ele balançou o indicador negativamente, contorceu os olhos e disparou cantando pneu. Suspirei de desespero, já contava mais duas horas e 10 minutos e nada, porra nenhuma. O ônibus municipal era a solução, virei as costas e rumei para o ponto mais próximo. Sem eu sequer esticar o dedo, “Seu Antonio” encostou a Van.

“Ta precisando de carona, amigo?”.
“Deu pra perceber?”, respondi balançando a mochila.
“Não sei se te ajuda, mas to indo pra Tijucas”.
“Preciso chegar em Floripa ainda hoje, onde fica Tijucas?”.
“Acho que não vou poder te ajudar, fica uns 50 quilômetros antes”.
“Ah, não tem problema, são 40 a menos pra amanhã”.

“Seu Antonio” tinha um bom coração, homem simples de fala urgente, quase desesperada, um negro que já cortou cana no norte do Paraná e agora transporta cerâmica em sua Van vermelha bastante surrada. Mas aquela carona tinha outro motivo, ele precisava desabafar, seriam 40 quilômetros de um intenso monólogo e eu estava disposto a desempenhar exemplarmente as duas partes que me cabiam no discurso, “aham” e “entendo, entendo”.

“Minha filha foi mãe solteira, sabe Junior, aos 15 anos, foi um tempo difícil, eu era religioso, da igreja católica, sabe Junior, eu não acreditei que aquilo pudesse acontecer, eu era religioso, não na minha casa, sabe”, ele saltava as sílabas, entortava os vocábulos e emendava as frases falando numa velocidade impressionante.
“Aham”.
“Foi aí que larguei a igreja, sabe, larguei religião, se você não consegue ajeitar as coisas nem dentro de casa, entende Junior, como que eu ia fazer fora, tinha um religioso perto de casa, um amigo nosso, só que crente, ele tem um filho que caiu nas drogas, sabe, tenho um primo que tava no álcool também, mas teve um filho e se endireitou na vida, hoje é da maior confiança, sabe Junior, e o filho desse religioso não consegue sair, e ele fica pregando, tentando me converter, sabe, eu falo pra ele ‘não adianta, eu não acredito’, mas ele fala que eu tenho que confiar em Deus, sabe Junior, Junior não é que eu não confie em Deus, eu confio, não sei se você entende, eu confio mas veja meu amigo religioso, fica pregando por aí, fora de casa, mas dentro o filho nas drogas”.
“Entendo, entendo”.
“Eu confio em Deus, só não tenho religião”, e assim foram entrelaçando-se as histórias de “Seu Antonio”, todas girando sobre sua apostasia religiosa após a gravidez indesejada da filha.

A Van encostou no primeiro posto da saída de Porto Belo, direção Tijucas. “Seu Antonio” precisava abastecer o óleo do veículo e achou que aquele era o melhor ponto pra eu descer.

“Eu sempre paro nesse posto, conheço os frentistas, vou pedir pra eles te ajudarem a achar uma carona pra Florianópolis”, enquanto eu retirava a mochila da Van, “Seu Antonio” conversava com três rapazes. “Eles vão te dar uma força, se aparecer alguém pra lá te avisam, sabe Junior, foi bom falar contigo”.
“Foi bom conversar com o senhor também, e ainda me livrou de Balneário”, sorri.

“Seu Antonio” partiu acenando, respondi com um “obrigado” e me sentei em frente ao café. Maycol logo veio me fazer companhia, loiro de sorriso fácil e gargalhada besta, de uma inocência inebriante era um dos frentistas no Posto do Dinho. Passei três longas horas bolando estratégias com ele e mais dois rapazes na tentativa de amolecer o coração de algum caminhoneiro sonolento. Mas nada deu resultado.

“Tenta falar com aquele cara de azul, ali do lado das mesinhas, ele é o gerente do posto, é gente boa, talvez ele arranje um lugar pra você dormir por aqui essa noite”, aconselhou Maycol antes de subir na bicicleta e sair ao final do turno. Aceitei o conselho e consegui a promessa de teto na borracharia caso ninguém me levasse até a capital. Mas o dia havia sido regado a quase-desistências, a intermináveis esperas e caronas de última hora, talvez aquele 27 de março estivesse disposto a fechar o ciclo como começou. E assim foi, após ouvir as mais esdrúxulas desculpas das mais indiferentes pessoas, encostou no café um Pólo branco, reluzente, 2.0. A princípio não me pareceu interessante, é raro alguém com um carro desses entender as razões de se pegar carona, mas não custava tentar. Segui o motorista até o café e na primeira bobeada investi, apostando num tom menos dramático entreguei meu cartão:

“Tudo bom? Desculpa incomodar o senhor, mas eu to precisando de uma carona pra Florianópolis e vi que sua placa é de lá, não teria como me levar?”.
Ele tomou o cartão entre os dedos percorrendo rapidamente com os olhos meu cansaço e disse: “sem problemas, só espera eu terminar o lanche”.

Com a voz um pouco fofa e cadenciando bem as idéias, logo que voltamos à 101, aquele senhor de 54 anos desvendou o mistério: “Sou motorista do Basdesc há 31 anos, agora estou guiando para o presidente do banco”. Se fosse o presidente eu aposto minhas bolas que daria a desculpa mais estúpida de seu leque mais estúpido de estupidezes e seguiria viagem sozinho. Mas não era, quem dava as ordens ali era “Seu Carlinhos”, e foram os vários anos na frente do volante que deram a ele uma precisão e estabilidade impressionantes ao dirigir sempre com os ponteiros acima dos 100. Isso porque ele não manejava o carro oficial, esse Pólo 2.0 era usado apenas quando o Marea 4.1 descansava na revisão. Torcedor do Figueirense, soava no rádio a vitória de seu time contra o Tubarão pelo estadual. Ele contava sobre a filha mais velha, jornalista como eu, mas ainda terminando os estudos em Maringá. E também sobre a caçula de 19 que vive com ele na residência de Blumenau para cursar Engenharia Ambiental. O relógio de ouro no pulso esquerdo de “Seu Carlinhos” não dava trégua e a vigésima hora contava seus derradeiros segundos.

“Onde você vai descer, já estamos entrando em Florianópolis”.
“Então, vou ficar na casa de um amigo, ele me disse que é depois do viaduto, perto de um colégio, em Saco dos Limões”.
“Saco dos Limões é aquele bairro ali”, apontou para direita logo após a curva.
“O senhor fica onde? Porque dependendo pode me deixar no terminal e lá tento um ônibus”.
“Mas eu também moro em Saco dos Limões, liga pro teu amigo e pede pra ele uma informação, o bairro é grande mas as vezes te deixo mais perto”, e finalmente o universo resolveu conjurar a meu favor, por uma conspiração caótica de conjunções inéditas, “Seu Carlinhos” morava exatamente a uma quadra da casa de meu amigo. Eu não podia acreditar naquilo, nada de esforços descomunais para chegar num lugar, já estava com saudade de um pouco de sorte. Quem diria, as três horas no Posto do Dinho valeram a pena. Me despedi de “Seu Carlinhos” e minutos depois Pedro, um grande amigo de infância, me levava para tomar umas cervejas na casa de um camarada. Chegou a hora de reabastecer o galão.

 

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O primeiro passo após a deserção

Março 31, 2008 · 4 Comentários

“Se acontecer alguma coisa você corre, tem um monte de bombas aí atrás”, advertiu Cristiano logo que aceitou me levar até Joinville. Saltei pra dentro do Mercedinho compacto, vermelho e branco, carregando dezenas de cilindros de oxigênio que abasteceriam indústrias e hospitais da região leste de Santa Catarina. “Passa o cinto por cima e senta nele só pros guardas não incomodarem. Você quer carona pra onde?”, iria com ele até o ponto final e estava disposto a escutar pacientemente todas suas histórias durante os 130 quilômetros. Tudo que eu queria era sair do acostamento da 101, aquele deserto mega-populoso de mecânicos transeuntes atrasados, foram 45 minutos balançando entre deslocamentos de ar artificiais, tentando me adaptar a minha nova aerodinâmica, mais larga, mais alta e com mais de um terço do peso de meu corpo depositado sobre os ombros. Eu deveria ter escutado Juanito Piquete quando cantou “has perdido un hombro donde llorar tus penas, has perdido un hombro donde enjugar tus lagrimas”, não era apenas mais uma bela canção libertária. Agora eu a compreendia nas entranhas. O sol resolveu aquecer aquela tarde, e enquanto Cristiano contava sobre seu filho Lucas eu observava meus braços avermelhados e me perguntava “porque, diabos, eu não uso protetor solar?”.
“Foda, essa vida é foda”, era o máximo que eu conseguia encaixar entre as histórias entrelaçadas do motorista de 28 anos, apaixonado por caminhões e tarado por grandes rodovias. Seu sonho é ter um caminhão-home, “o truck é do tamanho de uma Scania normal, mas com a cara chata, como um Fuscão, e o espaço que sobra atrás dá pra uma cama, um microondas e alguns armários”.
A combustão girava o motor a no máximo 100 por hora e assim levaríamos uns 30 minutos a mais do que o previsto para descer a serra serpenteando pela fronteira estadual, entre os restos da mata atlântica de picos abobadados em verde-escuro e umidade perfumada. Cristiano apontou o volante para um posto a direita da 101 e começou a reduzir, era uma benção levando em conta que já passávamos um quarto das 17 horas e eu não havia colocado nada no estômago que não fosse água e café. O tabaco me mantinha erguido, às custas da minha pressão, uma troca injusta, um jogo de canalhas, e eu estava ali para jogar, alcatrão, fumaça e fumaça, o sangue pulsando em 12 por 8 no café e tabaco, agora proteína e carboidrato. Esse é trato e não existe barganha.
Cristiano conferiu os cilindros, amarrou aqueles que pareciam um pouco soltos e então seguimos para um café da tarde. Para um vegetariano um tanto disciplinado, aquele era um lugar desprezível: havia três opções no cardápio, dois pães de queijo e uma esfiha de… bem, queijo. Peguei uma de cada e entupi a esfiha com maionese e ketchup já imaginando os condimentos tomando meu paladar. Pedi um café para atendente e então, VOILÁ, ela acerta a bandeja e derruba os salgados. Restou o derradeiro pão de queijo. E só.
Esperei Cristiano terminar seu imenso cachorro-quente com coca-cola, devorado com parcimônia à medida que contava sobre seu altruísmo moral quando esteve em Fortaleza a trabalho, “passei mais de uma semana lá e não fui na praia”, então segurava a frase para mordiscar o lanche e molha-lo no refrigerante balanceando gastronomicamente o discurso, “eu não tava lá pra passear, eu tava trabalhando, fiz isso em consideração ao meu pai e minha esposa que seguravam a barra por mim aqui enquanto eu ia pro norte”. Cristiano parece manter uma rigidez ética bastante regrada, principalmente com relação a si mesmo, o que não inclui seus quilos a mais e as bochechas rechonchudas, mas que o fez abandonar a faculdade para se embrenhar em uma rotina permanente de, no mínimo, dois empregos. Hoje transporta cilindros de oxigênio e nitrogênio liquido de dia e pizzas durante a madrugada. Há dois anos atrás, transportando documentos como motoboy, descia em disparada por uma pequena serra em zigue-zague quando detrás de uma delas, logo após uma curva fechada para direita, saiu um Celta prata, “eu teria desviado se ele tivesse continuado dando ré, mas o cara se apavorou quando me viu e freou, aí tentei contornar pela frente, mas não deu tempo”. Cristiano enfiou a moto na barra lateral do carro, foi catapultado e bateu com o ombro na porta dando duas cambalhotas completas no ar e caindo sentado sobre o teto do veículo. “Eu só fiquei atordoado e cortei fundo o dedo na lataria do carro, o sangue começou a escorrer pelo pára-brisa e o motorista saiu gritando apavorado”, ele rodou mais 800 quilômetros com uma moto emprestada naquele mesmo dia para cumprir seus compromissos. Rigidez ética bastante regrada, poxa, isso soa como um eufemismo maldoso depois de uma história dessas…
Segundo dizem, para chegar em Joinville é preciso seguir pela 101 e virar a esquerda na primeira chuva, mas felizmente ela não apareceu. Cristiano me deixou no Mercado Municipal, próximo ao centro da maior cidade de Santa Catarina, anotou seu numero e endereço caso eu precisasse de algo enquanto estivesse por ali.
Comprei um café e na televisão Alexandre Pato fazia seu primeiro gol pela seleção canarinho. Ninguém no boteco comemorou, mas alguns tiveram paciência de entortar os olhos e acompanhar o replay. Marly, uma prima que não via há muitos anos morava em Joinville com a família, e minutos depois de contata-los eu estava dentro de um Golf em direção a uma visita atrasada, e egoísta.
Marly trabalha em uma confecção como operadora de máquina catraca e Zuanir, seu marido, lida com motos e zicas – vulgarmente conhecida por aí como bicicleta. Eles têm dois filhos, o mais velho já na oitava série e outro de apenas quatro anos. Aproveitei a estada na cidade para acompanhar Zuanir no clássico regional, Joinvile X Havaí. A Arena Joinville, com capacidade para 22 mil espectadores, foi o palco para a peleja, assistida por não mais que 10 mil torcedores locais. Um típico jogo em que o árbitro transforma uma partida monótona numa rinha de dinossauros. Deixava a torcida injuriada invertendo faltas e travando o jogo a cada carrinho mais intrometido – é uma palhaçada, não se respeita mais nada mesmo, não se pode sequer ser desleal em campo, o futebol ta realmente um lixo, abaixo o fair play!!!. Já para além dos 40 do primeiro tempo o arbitro assinalou um pênalti que nem José Roberto Wright daria na final da libertadores de 1981 entre Flamengo e Galo. Tudo bem, sem exageros, naquela partida Wright daria até o intestino grosso pro urubu. Final da partida, o time da capital enfiou 0 a 3. Restava o cansaço e as anotações, a 101 me esperava na manhã seguinte.

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O último abraço antes da deserção

Março 29, 2008 · 5 Comentários

           |  Havia a ruptura, as dúvidas,
 Quando    | a anticonjuntura, a esperança,
  tudo      \ desejos flambando na densidade
 começou     \ hiperbólica das (im)possibilidades
             / e também uma pitada havia de angústia(r)
  

Receita do “Projeto Raul Do Que?!” (do que mesmo?), ou talvez apenas os passos para uma esquizofrenia intempestiva socialmente aceita, mas ainda assim uma receita. Que ateste o filósofo ermitão, receitas marcam um padrão, e esse padrão é sem receita. Prefiro chamar de prontuário.
Bem, chegou a hora de cultivar minha horta de dúvidas nesse latifúndio de incertezas que é a vida. A teleologia de si mesmo que se expande numa hecatombe egoísta e acaba por romper com esse ser cartesianamente dialético que nos fazem acreditar que somos.

E já corríamos nos ponteiros de 26 de março quando a expansão começou, sem rompimentos, o desertor me abraçou e repetiu :
“Vai nessa rapaz, te desejo toda a sorte do mundo”, eu sou um maldito azarado, daqueles que só por precaução jogam um anti- concepcional na privada antes de gozar nela, por isso qualquer “boa sorte” é sempre absolutamente bem vindo.
Ele saltara a poucos segundos do banco da frente daquele Golzinho antigo verde-musgo de “Seu Alceu”, me deixou um sorriso de perdão estalando entre nosso natural magnetismo de velhos amigos maconheiros, acenou pausadamente, virou as costas e partiu para o centro de Curitiba selando sua escolha.

Há pouco mais de quatro horas e meia antes de Rodolfo abandonar definitivamente nosso plano conjunto, chegávamos à BR 376 que liga Ponta Grossa a capital do Paraná. Eu carregava meu fardo “Trilhas e Rumos” de 20,5 quilos no lombo, além de pesadas incertezas que tive medo de colocar na balança e por isso apenas as suportava da maneira menos estúpida possível, resignado. Rodolfo levava em sua mochila, surrada durante quatro anos de “aulas” de jornalismo, cinco quilos de roupas, livros e entre as meias a leve certeza de que estava tomando a decisão correta.
Era um dia interessante para tentar carona, o sol estava tímido atrás de uma cortina espessa de nuvens ainda mais espessas, vento sossegado para leste e nenhum maldito pingo despencando do céu. Aquilo era o universo conspirando numa macabra ironia: duas horas depois de gastarmos os polegares no acostamento da 376 sem nenhuma boa alma para nos acolher eu já começava a acreditar que Rodolfo estava certo – desertar antes da batalha é mais digno do que ser vencido por ela; mas quem liga pra dignidade, eu mando a minha descarga abaixo a cada vez que o mundo me faz cagá-la de medo -. Só pensava no porque de três casais de urubus estarem sobrevoando nossas carcaças nos últimos 25 minutos, algo certamente fedia dentro de mim, eu mesmo podia sentir, mas certamente eles acreditavam menos em nós que nós mesmos. Talvez Rodolfo e os urubus estivessem certos e realmente não fosse o melhor momento para colocarmos em prática o “Projeto Raul Do Que?!”, nossa alucinada idéia de praticar aquele jornalismo que nos apaixonou, afinada durante meses de muita maconha e Ronnie Von, pipoca com ovo e Screw Jack, e ainda fazê-lo funcionar nesse esquizofrênico mundinho mercantilista da informação: viajar pela América do Sul de carona – mas não sejamos ortodoxos – com uma barraca como ninho e escrever reportagens no meio dessa patacoada toda não é algo assim tão simples.
O tempo passava a passos apressados e por isso decidimos nos separar: Rodolfo caminhou duzentos metros adiante e dessa forma oficializamos o divórcio, daqui pra frente era cada um por si, e sem frescuras de litígio. Mas, novamente, não sejamos ortodoxos, quase não acreditei quando cinco minutos depois o Golzinho de “Seu Alceu” diminuiu a velocidade e contornou à direita parando a poucos metros de mim.

“Opa, ta indo pra onde?”, perguntei assim que a porta se abriu.
“Fazenda Rio Grande”.
“E isso é onde?”.
“Pra frente de Curitiba”.
“Opa, me leva até Curitiba?”
“Entra aí”.
“Escuta, tem lugar pra mais um? Meu amigo tá ali na frente e também tá tentando ir pra capital, já estamos a mais de duas horas e meia aqui”. Ele pensou por quatro segundos e topou. Acenei para que Rodolfo corresse até o carro e logo estávamos cortando a 80 por hora os tons amarelo-oliva dos arredondados morros dos Campos Gerais.
Um representante de peças de 65 anos, pai de um maestro de 36, de um engenheiro mecânico formado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), uma agrônoma que exerce os dotes de veterinária numa fazenda de vaca leiteira nos Estados Unidos, e da caçula de 20 anos que é apenas carinhosa e “cabeça de bagre”. “Seu Alceu” foi nosso último elo, para mim a fugaz segurança de ter o talvez melhor companheiro de viagem por 200 quilômetros, e a última amarga pincelada para Rodolfo no “Projeto Raul Do Que?!”, nomenclatura escavada por ele após um brain storm insano.
A voz seca e rouca de “Seu Alceu” competia com o som do vento raspando nos vidros laterais, ele tangenciava as curvas enquanto lembrava do tempo em que vestia a camisa 8 do Bugre, o Guarani de Ponta Grossa.
“A gente ia de trem jogar em Paranaguá, três horas e meia, chegava lá em cima da hora”, o motor começou a reinar quando engatou uma terceira e jogou o Golzinho para a pista da esquerda deixando uma Scania atolada de soja pra trás. “Eu joguei a final do estadual de 1961 contra o Coxa, jogo difícil que a gente acabou perdendo”, mas o Coritiba escalara um jogador irregular, o que foi a carta na manga para que o Bugre entrasse na justiça e fosse autorizado a disputar uma partida contra o Grêmio em um torneio já extinto. “Foi uma sacola, eles faziam gol a hora que queriam, não era como contra os times daqui, foi um vareio, nem lembro o resultado da partida”.
Rodolfo dava a matiz da conversa, com sua desenvoltura simpática ia costurando perguntas pré-agendadas nas sinapses e ganhando a confiança do motorista, que, por sua vez, aproveitava qualquer ensejo para contar orgulhoso dos filhos, e também para lamentar que estes ainda não lhe tenham dado um neto. “A minha filha nos Estados Unidos ta com suspeita gravidez, iam fazer os testes hoje. Eu to com 65 anos e ainda não sou avô, meu irmão tem 58 e já tem netos”, mas não se pode esquecer que o irmão de “Seu Alceu” fugiu de casa aos 13 anos de idade com uma garota – futura esposa – da mesma idade, que com 14 já esperava o primeiro filho. “Pena que o bebê morreu com quatro dias. Mas aí aconteceu um negócio estranho: na volta do hospital, ali na varanda da casa deles tinha uma caixa de sapato, e um bebê recém nascido dentro, com uma cartinha dizendo nome, peso, idade e tudo isso”, uma menina que deu ao irmão de “Seu Alceu” o primeiro neto.
O papo seguia bem e Curitiba se aproximava, a cada metro mais além eu transpirava uma excitação apavorada, a overdose caótica de entusiasmo, medo, animação e desespero. “Seu Alceu” tirou a mão do volante e sacou um marlboro vermelho, antes mesmo de aloca-lo entre os lábios lembrou-se num leve sobressalto:
“Ah, algum de vocês fuma?”. Aceitei a oferta enquanto Rodolfo preferiu acender um black mentolado, também conhecido como charuto de moça, para acompanhar. Ao redor o cenário mudava, a serra ia ficando pra trás e aquele ar cosmopolita seguia impregnando o que restava de verde. Não que eu seja um daqueles senhores partidários da ecologia apocalíptica, mas também não suportaria um 69 com a tecnologia, sou um pouco careta pra essas coisas. “Seu Alceu” refletia sobre os tempos do Pelé, “jogava muito mais do que dizem por aí”, argumentava o parcial santista a medida que a fumaça escapava de sua traquéia para resvalar pelo vidro e desaparecer no vento. Assim como suas histórias. A janela semi-aberta servia de cinzeiro e meu cigarro suportaria apenas uma última tragada, por isso bati a cinza contornando a careca de Rodolfo para então sugar a nicotina pelo filtro, mas alguma coisa saiu errado. Não havia nicotina e Rodolfo começou a se debater gemendo da forma menos feminina que conseguia – grunhidos estridentes mas graves – logo depois que cruzamos pelo último posto da polícia rodoviária antes da capital. Ele batia nas costas e logo percebi a merda que eu havia feito, a brasa incandescente furou numa circunferência quase perfeita a camiseta verde-musgo do desertor, como uma aliança simbólica gravada a fogo. “Se eu não fosse seu amigo cobrava uma camiseta nova”, resmungou docemente Rodolfo quando a brasa rolou para o banco queimando o estofado. Um rombo do tamanho do primeiro terço do dedo mínimo, que só não foi maior pois “Seu Alceu” apagou a brasa no cuspe. “Que bom que você disse isso, Rodolfo, até pensei que ‘Seu Alceu’ e eu fossemos apenas completos desconhecidos”, pensei emputecido.
Poucos metros adiante o Golzinho reduziu e brecou já no acostamento, o motorista pareceu não ligar para aquele novo buraco adornando o banco do carona, ou fazia o possível para demonstrar isso. Rodolfo ficaria por ali, era hora de seguir sozinho, como um McCandless, mas sem aquele ar tolstoiano, nada daquela pureza moral e nem um pouco de auto-censura ética; meu negócio é com Stirner, Bukowiski, café e cigarro, mochila nas costas e Thompson no papel, talvez por isso o primeiro livro que escolhi para ler durante a viagem leve o titulo de “Como me tornei estúpido” – Martin Page. Ou talvez eu o tenha escolhido apenas porque era menor que um pocketbook e caberia facilmente na bagagem.

Rodolfo ficou, mais um fantástico jornalista em busca de subsistência. Como eu, ele toparia se vender por qualquer meio-piso, por um subemprego (in)dignificante e indiferente em todos os âmbitos que não tropece no financeiro. Nós seriamos muito mais dignos se não tivéssemos fome. Do retrovisor eu regurgitava meu momento melancólico, podia até ouvir os conselhos de meu pai na voz de Cat Stevens, “It´s not time to make a change, just relax, take it easy, you’re still young, that’s your fault, there’s so much you have to know”. Mas também lembrava dos versos da mesma décima música daquele simpático disco de 1970, “from the moment I could talk, I was ordered to listen, now there’s a way and I know that I have to go away, I know I have to go”.
“Só faltava dar um beijinho”, brincou “Seu Alceu” me transportando de volta ao Gozinho.
“Somos bons amigos, vou ficar um tempinho sem ver ele, mas agora tava pensando em outras coisas, isso vai ser difícil ‘Seu Alceu’, vai ser beeeeeem difícil, minha cabeça é um lixo tóxico”, sorri já prevendo que aquilo não faria nenhum sentido para ele.
“Vou te deixar aqui na saída pra 101, é só você seguir reto por essa entrada que dá na estrada pra Florianópolis”.
“E isso quer dizer que também vai pra Joinville?”, acenou positivamente.
O carro encostou em frente a um matagal, puxei meu fardo de 20 quilos pra fora, acoplei o chapéu na careca e bebi um gole de água antes de prender o cantil sobre a mochila.
“Tchau “Seu Alceu’, muito obrigado pela carona e perdão pelo banco”.
“Fica tranqüilo, essas coisas acontecem. Vai com deus e boa sorte”, a porta fez barulho ao fechar e a poeira levantou. Preferi não refletir sobre o que viria pela frente, mas vislumbrei os quatro quilômetros que teria que caminhar até atingir a 101 sentido Joinville. Que o sol siga escondido, isso vai ser difícil, vai ser beeeeeem difícil.


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