Quando afirmo que o “Prometo Raul Do Que?!” sobrevive de doses homeopáticamente grotescas de solidariedade não se trata apenas de verve verborrágica. Para ser mochileiro é necessário aceitar ser um fodido, e não há método Chandler Bing que consiga ser mais sarcástico que a própria rotina: você converte-se num estorvo generalizado quando toma um intermunicipal (esqueça, a mochila não passa na catraca e as duas piores merdas que se pode fazer é entalar ou trancar a fila enquanto saca o fardo das costas e se peida para passá-lo sobre a catraca – é fácil perceber isso depois da primeira experiência – , o melhor é manter a mochila nas costas e curvar-se levemente de modo que seja possível joga o peso sobre a parte superior da coluna, se preferir a erga com as mãos, mas por nada a retire do lombo, lembre-se que se isso acontecer será necessário recolocá-la, outro processo complexo e desgastante, ainda mais num ônibus lotado); é preciso esganar a timidez quando essa juventude indie pós-nirvana te laça com olhares inquisitivos como se você fosse um nômade catequizado por bíblias junkies – ou como se isso fosse muito importante apesar de verdadeiro -; responder com compaixão ácida e purgativa às senhoras pró-cristo que se benzem logo te miram ao longe; exercitar a paciência quando percebe um pai de família tendo um ataque de urticária só de te sentir aproximando-se de seu carro modelo novo com sua bela família a lá comercial da coca-cola enjaulada dentro dele indo direto à casa de campo que herdou do papai. É preciso ter genes de fodido e um certo gosto por masoquismo gratuito.
Existem muitos motivos para viajar, o meu é libertário.
E agora havia o Chuí diante das retinas, lá em frente a Ruta 09 pronta para ser retalhada e Manuel Serrat recitando pausadamente: “caminante no hay camino, se hace camino al andar, al andar se hace camino y al volver la vista atrás, se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino, sino estelas sobre el mar. ¿Para que llamar caminos a los surcos del azar…?”. Serrat sabia que dentro da minha carteira havia um papel dobrado, com a direção de Dona Madalena e Seu Jorge, avós de um amigo do Paraná. Já não havia sol algum nem fazia frio, uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul com seus hábitos provincianos e rádios uruguaias, ondas eletromagnéticas que estão pouco se fodendo pra aduana e suas leis de imigração. Com o endereço entre os dedos e meu senso de direção completamente defeituoso fiquei cerca de 15 minutos tocando a campainha na casa errada, batendo palma e gritando em frente ao portão. Retirei da raspa de uma profunda inspiração o verniz menos imbecil que encontrei e esfreguei na cara quando finalmente encontrei a porta certa.
“Olá, Dona Madalena? Eu sou Junior, amigo do seu neto Rodrigo”, aquela provavelmente era a primeira vez que me referia ao Gaúcho por seu verdadeiro nome, “ele me passou seu endereço caso eu precisasse de um pouso aqui pelo Chuí”.
“Mas passe, passe”, a casa fica nos fundos da pequena loja de produtos Avon. Pensava ficar por uma noite, acabei permanecendo duas.
Mesmo madrugando para tomar o primeiro ônibus até a Barra do Chuí e conhecer a última casa, o último museu, o último instituto, último boteco e entrevistar o responsável por tudo isso, o último artista plástico e ultimo habitante em termos geográficos do Brasil, ainda assim não sobrou tempo para cruzar à Ruta 09 e entrar no Uruguai. O que restou foi descolar uma dose extra daquele mesmo verniz e esfolar novamente na cara: “Será que eu posso incomodar vocês por mais uma noite?”.
Dona Madalena e Seu Jorge são tão hospitaleiros que chegam a machucar, ao passo que as sete da manhã do dia seguinte eu estava dentro do carro de Seu Jorge seguindo afoito até a aduana uruguaia. Os guardas tomavam mate, uma serração baixa esfriava o asfalto, Seu Jorge dava meia volta e eu retornava para minha volta e meia. Tudo em uma desconexão inexplicável.
O tempo passava e os carros não, minha introspecção era potável e passei a me hidratar com ela quando o cantil secou, mais de duas horas depois. A média de veículos não ultrapassava os oito a cada hora, sendo três motos, três carros que circulavam para a Barra Del Chuy, um caminhão que contornava para retornar ao Brasil e um carro em direção Punta Del Este e que não estava interessado em ajudar um caroneiro. O Uruguai me recebeu com um teste de persistência budista que eu não estava nem um pouco disposto a aturar. Três horas e meia de espera já eram suficientes, então decidi subir no próximo ônibus que passasse indo para La Fortaleza, que segundo o agente da aduana era um lugar interessante pra caronear. 30 pesos de passagem, cerca de três reais, e uma viagem de menos de 30 minutos até uma imensa construção na entrada do Parque Nacional de Santa Tereza. O lugar estava deserto, as únicas almas que encontrei foram de um grupo de turistas dinamarqueses que caminhavam desde Punta Del Diablo até a Ruta. Larguei a mochila num arbusto próximo ao forte e fui conhecer o lugar. La Fortaleza é fascinante para os padrões sulamericamos, mas parecia um bando de pedras velhas empilhadas para os europeus, acostumados aos castelos medievais. Pedi a eles a direção de Punta Del Diablo e caminhei dois quilômetros até a praia. Não fiquei muito apesar da vista entorpecedora das rochas pontiagudas perfurando a maré, aquilo mais parecia um western litorâneo: estabelecimentos de madeira batendo as portas com o vento, fardos de areia girando como feno e aquele zumbido inquietante do silêncio. Passei pela guarda do camping antes de retornar à Ruta e pedi para encher o cantil. Um milico virou alguns mililitros de água gelada e então voltei para buscar a mochila e retornar para rodovia. Mas não sem antes purificar a água com um comprimido Clorin, não confio nessa raça, não mesmo.
Mais duas horas diante de um campo militar cercado de varejões amarelos com ferroes assassinos maiores que uma amora. Havia algumas arvores de buchá ao lado da estrada e esse acabou sendo meu almoço, bucha maduro e mais uma média complicada: três carros a cada trinta minutos, a maioria voltando para o Chuy e alguns entrando em Santa Tereza. A solução foi estender a mão quando um veículo construído em Joinville passou, ele cobrava 20 pesos até Rocha, outro ônibus. Só é possível pedir carona quando há para quem pedir carona. E não era o caso. Eu acabava de romper com a ética da puta que o pariu do caroneiro padrão. Não é uma decisão fácil a de desistir, de tomar um ônibus confortável, a porra do conforto é a assinatura da derrota, perdeu playboy. Mas uma hora ela chega, e bem, foda-se. Meus ídolos são uma trupe de iconoclastas perdedores com um mínimo potencial mega-explorado, era hora de seguir seus passos, pelo menos até Rocha.
Um ponto gigante no mapa, mas quase uma vila aposentada em 27 mil habitantes e terra do glorioso Rocha Fútbol Clube, vencedor do apertura de 2005. Não se pode exigir muito, o Uruguai tem em torno de quatro milhões de habitantes e quase a metade deles vive na grande Montevideo. Após um lanche rápido de 20 pesos voltei à intratável Ruta 09. E estava disposto a recuperar um mínimo da dignidade que ela me fez engolir desde o Chuy.
Duas horas com o dedo pro oeste e nada, a carteira de cigarro que comprei em Porto Alegre terminou naquela maldita saída de Rocha, e minha dignidade parecia ir no mesmo caminho, “está difícil, heim, hermano?”, comentou um rapaz de riso abobado logo depois que um carro compacto estacionou um pouco em frente, e arrancou tão logo me aproximei imaginando que parava para mim. Filho da puta do caralho!
“Sim, e essa rodovia é uma filha da puta também”, devolvi, já era o segundo veículo que testava meus nervos dessa maneira.
De repente, uma caminhonete marrom encostou poucos metros atrás e dela saltou um motorista moreno e barbudo, sem camisa, com dreads grossos até a bunda. Ele puxou uma mochila enorme da caçamba e colocou no chão. Em seguida saiu Lorena com seu saco de dormir nas mãos, um chapeuzinho de palha e traje hiponga.
“Olá. Tá tentando carona faz tempo?”, perguntou depois de se despedir do motorista de dreads.
“Umas duas horas mais ou menos”.
“Duas horas?!!! Caralho, eu nunca fiquei mais de quarenta minutos esperando”.
“Talvez o fato de você não ter um pinto entre as pernas ajude”, saquei a mochila das costas e deixei rolar no acostamento.
“É, pra homem deve ser mais difícil mesmo, geralmente eu consigo carona em vinte minutos. Lorena, prazer”.
“Pra mim isso é piada de mal gosto. Eu sou Junior. Da onde você é?”.
“Argentina. Você parece europeu, mas tem acento uruguaio”, ela mal chegou e já lançou o dedo pro alto ao lado da rodovia.
“Sou brasileiro. Ta tentando chegar em Montevideo?”.
“Queria chegar em Buenos Aires mas pra hoje Montevideo tá bom. To há 14 meses no Uruguai, ta na hora de voltar pra visitar a família”.
“Fazendo o que?”.
“Cuidava de tartarugas num projeto no litoral, fiquei oito meses trabalhando com isso, depois fui pra serra numa comunidade, fiquei lá plantando tomates”.
“Seis meses plantando tomate?”.
“Não não, fiquei curtindo Cabo Polônio, me apaixonei pelo lugar. E você, só de turismo?”.
“To tentando encontrar meu EU interior”, sentei na grama e deixei que Lorena fizesse o trabalho sujo, podia apostar que comigo ao lado ela bateria seu recorde de espera.
E meia hora depois, “bom, vou ver se tem uma saída mais em frente, sorte”, virou as costas e seguiu caminhando.
“Hasta”, ela teria batido o recorde.
Mas contornando pela saída de Rocha vinha mais um joguete sacana do destino, de 52 anos e conterrâneo de Lorena, parou com sua vâzinha azul-escura e perguntou se eu queria carona até Maldonado.
“Isso é perto de Punta Del Este, certo?!”.
“É do lado”, embarquei. Ele acelerou fundo e encaixou a segunda marcha.
“Hey, ta vendo aquela moça?!”, apontei para Lorena, “conheço ela, não dá pra levar os dois?”, ele diminuiu e brecou o carro ao seu lado. Lorena subiu.
Minha apostasia ética deveria cobrar seu preço, e era uma boa hora pra retribuir em solidariedade envelhecida. “Obrigado pela carona”, agradeceu.
“São amigos?”.
“Não”, antecipou-se Lorena enquanto ajeitava a mochila entre as pernas.
“Mas você falou que conhecia ela”, virou-se assustado e com uma séria mirada acusatória.
“Mas eu conheço ela, há 15 minutos, mas conheço. Aliás, ela não é minha amiga”.
“Bom, então você deveria agradecer a ele que pediu pra eu parar”, disse a Lorena.
“Menos de 40 minutos, te falei”, piscou.
“Graças a mim, Lorena, não se esqueça”, dei de ombros. Tolstoi diria que estou plantando minha hortinha no céu, puxando o saco misericordioso do senhor, mas prefiro o método tosco dos Sem Terras Divinas invadindo os latifúndios eclesiásticos.
Franchesco nasceu na região central da Argentina mas morou oito anos em São Paulo, também passou pela Colômbia, Chile, Venezuela, Peru e África do Sul. Agora fincou raízes no Uruguai, país que adotou como seu. Ele conduzia a van sempre abaixo dos 100 km/h, mantendo o perfil sossegado do tráfego uruguaio por suas rotas sem curvas. Foi uma carona tranqüila, precisei falar pouco já que os argentinos trataram de deflagrar uma disputa para descobrir qual deles detestava mais intensamente Buenos Aires. Enquanto isso eu curtia silencioso a paisagem de gado e gado. E mais gado.
Um trecho de 100 quilômetros, Lorena desceu alguns metros antes de mim, ainda na Ruta, eu segui com Franchesco até o terminal de Maldonado, onde tomei um ônibus para o camping de Punta Ballena.
É um assalto os 120 pesos que cobram por uma mísera noite, isso que nem estávamos no verão. Tratei de logo preparar um pouco de soja, tomar um banho e dormir, iria despertar com o Sol na manhã seguinte. E ele aproveitava a brisa matutina quando abri o zíper da barraca, uma brisa suave e um pouco fresca, saudei-o e me respondeu com um bocejo, era cedo demais pra qualquer lucidez. Deixei a barraca fechada e fui conhecer um pouco de Punta Del Este antes de partir para Montevideo. Já próximo às 11 retornava ao camping para organizar o equipamento e seguir até a Casa Pueblo, última parada antes da capital – nada como uma caminhada de alguns quilômetros com 20 quilos nas costas e sem café da manha para começar bem o dia. Conversava com um jovem casal a medida que desarmava a barraca e socava o saco de dormir na mochila. Eles eram de Montevideo e aproveitavam uma brecha no trabalho para curtir o litoral. Éramos os únicos no camping naquela época de entressafra.
Acoplei o fardo nas costas, seqüestrei uma boa dose de fôlego e mantive um ritmo forte logo no início do aclive que me levaria à Ruta 10, o aroma do orvalho esquentando e escorrendo pelas copas amenizavam o trecho. Antes que me esforçasse para sugar a segunda dose de fôlego, um gol cinza parou ao meu lado e ofereceu carona até a Casa Pueblo. Era o casal do camping.
A Casa é o museo-oficina do escultor, arquiteto, cineasta e, antes de tudo, pintor Carlos Paéz Vilaró, com uma cafeteria exploradora de pingado a 60 pesos e uma vista mágica, que custa 100 pesos e hora e meia, no mínimo: acima da costa de Punta Ballena, roçando em esverdeadas ondas transparentes, lá ao fundo, o mesmo sol que bocejou pela manha sai de cena, caindo atrás do mar ao som do poema.
“Podia sacar uma fueto mia, por favor”, pediu uma jovem e bela turista.
“Si, claro. De donde eres?”.
“Brasil, e la fueto, aqui sim, faziendo un favor”, ela descartou a incrível vista da baía e se posicionou em frente à piscina do hotel.
“Ok, sin problema”, mas havia um problema, grande e conceitual. Ela me tomou como seu fotógrafo particular, só pedia fotos posadas com os dedos em “paz e amor” em frente à piscina do hotel da Casa, e mesmo com meu incrível fedor de suor – que afastava a todos os turistas em uma circunferência de segurança – passou a me seguir por todos os cantos. Será que algum psicanalista insano poderia me explicar o processo cognitivo que acontece – geralmente após um longo período de letargia – no cérebro desses espécimes femininos da alta súciedade quando seus poros Imperial Majesty desenvolvem uma epidérmica síndrome de Estocolmo ao sentir no ar o fresco fétido do sovaco de malucos mal vestidos, mal educados, nada simpáticos que exalam desprezo e fungos quando em contato com seus estrogênios rosa-pink? Como eu naquele momento.
“De onde você eres?”, perguntou.
“Que pides?”.
“Where are you from?”.
“Bem, como diria a canção, sou de um povinho ao sul dos Estados Unidos chamado Sul América, mais especificamente de um país miserável conhecido vulgarmente como Brasil”, ela pareceu ofendida, mas não o suficiente, continuou a perseguição pelas galerias da Casa. “Bem, eu vou entrar na sala de vídeo”, me referia a um local de introdução ao museu.
“Mas aí é só um vídeo chato, já entrei e não tem nada demais”, ensaiou um biquinho charmoso.
“Vejamos, somente a história inteira de Vilaró e da Casa Pueblo mas que realmente não têm nada demais já que estamos num belo hotel em Beverly Hills”, ela bateu a porta antes de sair.
Já passava das 12 e alguns passos distante da construção de Vilaró consegui uma carona rápida até a Ruta 10, na caçamba de uma saveiro. Então caminhei por 15 minutos até o KM 113, saída de Punta Ballena rumo à Montevideo, 119 quilômetros distante. Dessa vez o tempo não custou a passar, e quando tentou ser cauteloso com seus minutos uma caminhonete Chevrolette preta, quatro portas, encostou e dela saltou um rapaz jovem falando ao celular.
Logo sinalizou para que eu embarcasse na caçamba, “permiso, un ratito”, disse à pessoa do outro lado da linha, “para donde, muchacho?”.
“Montevideo”, respondi me aproximando.
“Bueno, vale, nosotros vamos para allá, te levanto”, subi na caçamba e ele ligou o motor.
Punta Ballena a Montevideo: vento na cara e outdoors embaçados desaparecendo em 120 por hora, pista dupla sem curvas nem solavancos por alguns pesos pedagiados. Ronnie Von dava sentido a tudo, embalávamos na “Maquina Voadora”.